quinta-feira, 30 de abril de 2009

abraços



gestos são tudo, quando trazem o que está dentro para o exterior.

não escrevo de linguagem gestual, sou um ignorante curioso acerca. escrevo de body language. suponho que também aí se possa mentir (há gente para tudo e o ar que se respira ainda é de borla), mas as verdadeiras verdades são transmitidas mais com o gesto, menos com odor, sabor ou som.

podia alongar isto, fazer um elogio da linguagem corporal, mas elogios são das romãs e quero deixar distâncias.

to make a long story short, vou falar de duas coisas apenas, porque para ainda me aturarem tem de ser bons entendedores (entenderem-me, entenda-se).

a pessoa cuja gestualidade mais me fascina tem para cima de 70 anos. é uma senhora que ensina ballet, foi bailarina, mal consegue andar ou mexer-se, tantas vezes, mas ela faz um gesto e enche um teatro. quando calha estar com ela, mal a oiço (exagero), basta olhar. ela gestualiza tristeza, solidão, sonhos e memórias antigas. mas quando fala das opções que fez, é maravilhosa, vale toda a tristeza que espalhou antes, porque é uma pessoa que não tem arrependimentos, não faria nada diferente do que fez, não deixava de perder o que perdeu. e pasme-se, aconselha as pessoas a perseguir o que querem, frontalmente.

o gesto dele a demonstrar a pequenez alheia é, talvez, o mais expressivo de todos: um movimento de pulso, um abrir de dedos, um esgar facial, e ela condena-a toda, à pequenez, para todo o sempre.

é uma daquelas pessoas que vai morrer, um dia. e vai morrer, porque está viva, condição única e necessária para morrer (não tem nada a ver com deixar de respirar).

tendo escrito da gestualidade, escrevo do gesto. o meu gesto favorito (se o tivesse, seria) é o abraço. porque materializa um conceito que me é mui querido, a "distância zero".

"distância zero" acontece quando duas (ou mais) pessoas estão tão próximas que nada existe entre elas, nem vácuo, quando nem tem de estender um gesto para se tocarem. o abraço é o gesto que materializa essa proximidade, o mais que se pode desejar numa relação (qualquer que ela seja).

pudemos trocar fluídos, carícias, suor (é um fluído, mas apeteceu-me particularizar este), toques, beijos, intimidades mil. quando, depois de tudo isso trocado, duas almas ficam abraçadas, valeu a pena ter trocado tudo isso.

eu sei que estou feliz com alguém quando acordo a meio da noite (ou antes de adormecer ou ao acordar) e estou a abraçar esse alguém. essa pessoa, seguro, é-me preciosa.

p.s.- já usei a imagem que ilustra o post num das romãs. tal como o abraço materializa a minha distância ideal, a imagem retrata a relação ideal. sonhos de menino num mundo equilibrado por uma menina. há quem julgue que era ao contrário, o menino é que era o equilíbrio. a mim parece evidente que era mútuo, cada sentido equilibrava o outro.

p.p.s.- o abraço do vídeo, do modo que é apresentado, será pouco reconhecível se não lerem a legenda. para mim, faz parte da mobília da sala de sonhos.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

ondas e marés



o meu filhote é um leão.

parênteses (para quem não sabe, estou a escrever aqui temporariamente, por motivos de dores pessoas que não quero contaminem as romãs. este blogue tem vida limitada e desde a primeira palavra que tem última frase (fala de leões e paz na selva), porque eu sei como tudo vai acabar, só não sei quando).

ontem encheu-me de orgulho. fui espreita-lo à natação, ele nada como um golfinho, faz as cabriolices todas, continua a adorar mergulhar (a profundidade atrai-nos a ambos), mas já faz piscinas.

mas o que me encheu não foi isso, foi ver que, mais que águas serenas de piscinas municipais ele sabe vencer ondas e vai saber vencer marés, porque nada para onde quer. nada por ele e ontem nadou para mim, apenas porque quis.

é esta a minha definição de um espírito livre.

uma pessoa que nos conhece juntos disse que enquanto eu estiver de pé, ele também não cai. e que faço bem em não lhe esconder nada nem deixar que ele seja envolvido em segredos tacanhos. eu falo das coisas de frente e ele abre os olhos, engasga-se, deriva na conversa, ainda lhe é estranho que se possa viver sem ser às escondidas, sem segredos, mas vai chegar lá. o conceito atrai-o, they can't take that away from him.

ontem deixou-me a pensar num comercial parvo. é como diz a eva, contento-me com o melhor...

terça-feira, 21 de abril de 2009

les jeux son faits



faites vous jeux.

a modos que como quem diz que na vida tudo tem riscos e temos de fazer apostas.

não sou jogador por natureza, gosto de ter controle sobre as apostas que faço e não me agrada ficar dependente de dados ou cartas aleatórios (nem entro no assunto das batotas).

já de riscos, gosto, porque quase tudo que realmente quero na vida é grande e exige risco para alcançar. e porque o melhor de conseguir algo não é chegar lá, mas sim a capacidade de fazer o caminho, ultrapassar barreiras, sentir a aproximação, depois de sermos capazes de o escolher (ao caminho).

curiosamente, o que mais quero deveria chegar-me risc free, e não chega assim. deveria vir livremente e está preso, tenho de derrubar dragões para lá chegar. quem escreve dragões escreve bruxas, mas daquelas dos filmes da disney, que correspondem às fadas da dreamworks. porque há sempre mais de uma perspectiva para avaliar o valor de cada um. bem, algumas são manhosas....

o primeiro livro que li de dostoievski foi "o jogador" (amor à primeira vista, em arte acontece). é acerca de um personagem viciado em jogo, que ama uma mulher, que se revela o ama a ele também. como é dostoievski, (se bem que nem sempre fedor é dostoievski, há gente que se salva) o amor dela não chega para o soltar do vício e ele segue perdendo. suponho que ambos seguem perdendo, aliás.

há jogos que abalam a tranquilidade de muita gente, mas tem de ser, é preciso saber olhar para todo o percurso, e não apenas para a porta que nos querem fechar na cara...

les jeux son faits.

pesos, karmas e descontos


coisas que, por mais que nos esforcemos por deixar, nos caiem sempre em cima de novo...

há quem chame karmas, destinos, azares, maus ventos.

para mim, são consequências de opções que fizemos e que temos obrigação de aturar, nem que seja a vida toda.

claro, não temos de o fazer de uma forma passiva. se bem que há quem goste, da forma passiva, e quem sou eu para desaconselhar.

eu nem me posso queixar muito (e não queixo), só tenho uma, e nem vai ser a vida toda.

é como diz a minha abuelita, é para desconto dos meus pecados. safa, já posso pecar à vontade o resto da vida, tou em crédito!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

cataventos e os outros



"he is philosophically driven and derives his decision making from his strong philosophy".

palavras de apreço de um dono de equipa para o seu treinador, falava em virtude deste ter sido nomeado treinador do ano. não venho discutir os méritos do senhor (que os tem), uso apenas os moldes da apreciação para focar um ponto que me é caro.

falo muitas vezes com muitas pessoas que vão moldando convicções ao sabor do momento, ou seja, batem no peito (e belos peitos tantas vezes têm) ao afirmar uma coisa com uma convicção que se vai diluindo à medida que a maré muda (não, nem me refiro a casos desesperados que prefiro deixar anónimas, há degraus que não vale a pena descer).

refiro-me a questões de convicções menos fundamentadas, que não se afirmam com a serenidade, antes se demonstram à la tarzan (ainda que adore quando isso faz parte de um processo de crescimento e não se resume a evitar viver de frente).

parênteses, (isto relembra-me uma história que um colega mais experiente contava (era das melhores histórias que ele contava e nem era das que mais repetia) acerca de uma nota pessoal num discurso do antónio salazar, talvez perante a assembleia constituinte. estava escrito na tal nota "argumento fraco, falar alto").

o post de hoje é acerca do gosto que tenho de admirar pessoas que agem de acordo com um grau de convicção inabalável e de uma forma admiravelmente tranquila. é isto possível (sim, é realmente possível) quando as pessoas são fiéis aquilo em que acreditam, mesmo (e principalmente) quando seria mais fácil adaptar a convicção a outra que estivesse mais a jeito.

há umas semanas atrás estava em debate com uma amiga acerca do meu petiz, de que atitude deveria eu tomar perante o problema que nos criaram. na opinião dela, haveria certos passos que mereciam ser dados, porque o fim justificava da-los (e se este fim não os justificasse, nenhum outro justificaria). convicção minha noutro sentido, porque faço questão de olhar para todos de frente e puder ser sincero, porque alguém tem de manter sanidade e controlo no meio do caos, e porque, convicção minha, bem enterrada, que fazer as coisas correctamente compensa, em resultados e num mundo mais coerente para nós e os nossos (mesmo que leve tempo) e em sanidade mental, consciência ligeira (é que se ela pesar, em vez de sonhos saem pesadelos).

resulta melhor agirmos de acordo com quem somos e acreditamos (sem prejuízo de evolução humana...) em lugar de cataventar por aí.

domingo, 19 de abril de 2009

santa clara-a-velha



a vida pula e avança.

ontem o sbording ganhou, e parece que ninguém percebeu porquê... claro que não percebeu, tinham de ter estado em minha casa, na minha sala, para perceberem.

também ontem, reabriu ao público (parece), depois de muitos anos de arqueologia e projectos de reutilização, a velha igreja de santa clara-a-velha, sita em santa clara-a-velha.

local cheio de histórias, públicas e privadas (a primeira vez que nela me deti, encontrei um colega de faculdade, ambos tínhamos vindo fazer a inspecção militar a santa margarida, retornávamos ao quartel, eu vinha de jantar e sexo na banheira, estava mais animado que ele), alagada há décadas em virtude de nível freático inferior à cota do mondego (o nível, mademoiselle, o nível. ou como dizem os espanhóis, o nivél), estará (de acordo com projecto publicado) desafogada.

engraçado, como até edifícios se podem salvar. meio triste que sejam escolhidos a dedo (boa escolha do dedo, neste caso), tantas vezes injusto naqueles que aponta. faz-nos ter esperança que seja possível desatolar tudo, por mais lama que tenham em volta...

eu não fui à inauguração, por dois motivos:

um, não sou dado a inaugurações. por vezes acontece ir às de clientes meus (travaille oblige), acontece até nem me arrepender, mas nunca gosto muito da ideia de ir, antes de realmente ir. assim que me lembre, fui à do dolce vita, seca brutal (mas o pós inauguração valeu o frete).

outro é que ando com uma nuvem muito escura em cima da cabeça, sempre que saio de casa, tromba de água. já me disseram que sou eu que faço chover, mas acontece que também chove quando estou em casa (pode-se considerar que tenho uma nuvem tão negra que até funciona debaixo de telha, parece-me explicação justa). não quis eu que, depois de tanto trabalho a bombear água dali para fora, fosse a minha nuvem alagar-lhes o serviço de novo (haja sentido cívico)...

terça-feira, 14 de abril de 2009

ah, a justiça



para um fulano como eu, acreditar que a justiça funciona é imprescindível.

isso porque, por mais que eu acredite no ser humano (e acredito muito, dizem que demais), há espécimes rasteiros em profusão, e face a eles, ou descemos degraus (e para mim não é opção) ou a justiça funciona.

muitas das pessoas que me lêem tem formação jurídica (e são mulheres, e mulheres juristas são muito atraentes, e boas amantes, escrevo eu, sem menosprezo para mulheres com outras formações), muitos(as) são amigos(as) de data longa, relaciono-me com eles(as) e colegas deles(as) há muito, tanto que acabei por desenvolver capacidade de ter uma perspectiva (parcialmente) jurídica do mundo.

essa perspectiva permite-me introduzir alguma distância na análise, olhar para as coisas de uma perspectiva complementar, menos apaixonada, mais objectiva, mais técnica (realço que é complementar, a apaixonada nunca perco).

uma das características que a justiça tem (a nossa acho que abusa), é que tarda muito, demais. outra, é que há gente que fica de fora. a terceira característica que quero referir hoje, é que está a mudar, em muitas situações.

algumas leis são mais justas (risos) e há outra atitude, melhor formada, de quem exerce nesta área. digamos que é uma justiça mais moderna, corrijo, a modernizar-se, a largar pré-conceitos.

suponho que continue a haver idiotas e chicos-espertos com fartura, mas durmo um pedaço melhor sabendo que não se safam como safavam.

que porra, que vai um fulano ensinar ao filho, por mais que lho tentem tirar? que está certo mentir e enganar, fazer de conta e criar dúvidas para fugir à verdade, que se pode manipular pessoas e conceitos porque compensa? ou que se deve fazer sempre (sempre, sempre, sempre
, sempre, sempre) o que diz a consciência, porque ser honesto compensa?

pergunta simples, resposta fácil. acontece é a resposta não ser igual para todos(as), bien entendu...

para grandes males...



isto é temporário. por quanto tempo, logo se vê.

tem-me sido estranho ficar sem escrever e não quero escrever lá, por isso criei um espaço novo. para grandes males, grandes remédios...

as regras são as mesmas: nenhumas, excepto requisitos de gentileza e frontalidade. é mesmo a mesma coisa, apenas eu estou mais volátil, talvez surjam coisas que não tinha mostrado antes.

para quem tinha saudades e não calhou falar comigo ultimamente (ou falou e eu despachei para não andar sempre a contar a mesma história imbecil, vezes sem conta), ando bem humorado, vem aí dias bons, apesar de ameaças que me fazem de trovoada (mas como diz uma amiga, é mentirologia).

o mundo tem lógica, por mais parvoíce que lhe espalhem por cima, e porque o meu mundo depende de acreditar que se chega a fins felizes, deixo vídeo do mais belo fim de filme que vi (talvez não seja "o mais" e esteja a exagerar, volatilidades).

aliás, nem é bem o fim, é quase o fim, porque o fim não arranjei e esta parte explica tudo que há para perceber. o filme é genial (daqueles casos raros em que um filme não fica a perder para um livro, e dos mais raros ainda em que fica a ganhar-lhe), trata de uma relação que se desenvolve em adversidades, de prisões e libertações pessoais, gente que sonha e vive, porque não há outra maneira.

algures, tudo encaixa, fica bem e a mesquindad desaparece das nossas vidas...