
há dois livros do pequeno gaulês (e do forte) que aprecio especialmente: o grande fosso, que acho foi a primeira percepção que tive de como a arte (neste caso, a nona) torna a realidade mais evidente (neste caso, os apaixonados que motivaram a ponte sobre o fosso, muito antes da queda do muro de berlin pela perestroika) e o domínio dos deuses, acerca da tentativa de césar de, não os conseguindo vencer, os juntar a si (repararam na subtileza ditatorial?).
para quem não leu e nem tem intenção de o fazer, é a tentativa de civilização dos "bárbaros" gauleses, edificando em volta da aldeia um condomínio romano, com todas as características dos que se fazem actualmente (vão lá ler, vá....). gostei do livro muito antes de fazer opção profissional, era puto, o subconsciente é danado para a folia.
depois de uma árdua luta para edificar a obra (mão de obra escrava (quase como hoje...), de cujo esforço repetido os nossos heróis se condoem, permitindo o evoluir dos trabalhos), a "civilização"romana trás todas aquelas coisas com que hoje convivemos: subida de preços, relacionamento com vizinhos, problemas de circulação, adaptações sociais e violência urbana (à moda tabefe, no caso), outra vez a bd a realçar a realidade.
na realidade, de há uns anos a esta parte, e com cada vez maior relevância, tem-se debatido acerca de modelos de vida (o que deve estar provavelmente associado ao facto de aqueles que hoje temos não serem grande espingarda). as pessoas preocupam-se com preocupações que há 50 anos não sonhavam, nem nos piores pesadelos. hoje não falta habitação (escrevo da realidade portuguesa), falta dinheiro para a pagar e, conseguindo paga-la, mais importante, de habitação com qualidade de vida.
não se trata de qualidade construtiva básica, de haver fendas ou fissuras, de serem materiais caros ou baratos, modernos ou clássicos, espaços arquitectónicos qualificados muito ou pouco (o que não tem menos importância, mas não é chamado para este post, aqui escrevo a outra escala). trata-se de os espaços públicos terem ou não qualidade, de permitirem e potenciarem um viver saudável e produtivo aos utilizadores (normalmente, os habitantes).
muitas das discussões centram-se, para mim erradamente, acerca de onde cada um prefere viver: espaço urbano ou rural. erradamente porque isto é uma questão de opção pessoal, on est ce qu'on est. a questão é se o rural tem ou não qualidade, se o urbano tem ou não qualidade, se o suburbano tem ou não qualidade, se o metropolitano (à nossa escala, lx e porto) tem ou não qualidade, se o insular tem ou não.... já perceberam.
associado a questões de preferência pessoal, estão causas económicas familiares, e em consequência, macro económicas. parece-me que muitas pessoas (sobre)vivem como podem e não como gostariam. também há responsabilidades pessoais nisso (más escolhas), mas não só, há erros ridículos de planeamento urbano.
o busílis da questão é que cada ambiente (e respectiva especificidade regional, aahh, as especificidades regionais) que cada alma escolhesse para habitar com a família, tivesse qualidade. que quem quisesse viver no campo tivesse mil opções para o fazer e ser feliz, no que a meio ambiente diz respeito. e o mesmo para todas as opções de vida por que cada um optasse como o seu ambiente.
tem a ver com cada um saber o que quer e exigi-lo. porque se é uma enorme verdade que a situação actual resulta de especulação imobiliária (sejamos honestos), a verdade é que se uma pessoa estiver ciente do que quer não vai embarcar na especulação, porque não a satisfaz (especulação está relacionado com promoção de construção não com objectivos urbanos mas resumindo-os à realização de lucro). não embarcando, quem especulou está a perder dinheiro, porque investiu e não tem retorno! ou muda de atitude ou se dedica a fazer caricas...
nada contra empreendedorismo, tudo a favor, mas bem vocacionado. nada contra quem investe e quem trabalha ganhar dinheiro, tudo a favor. mas o dinheiro não devia ser ganho porque se investiu e se trabalhou, devia ser merecido por se prestar um serviço, neste caso facultar um produto, que satisfizesse quem paga (o produto e o lucro).
é aqui que encaixam as energias renováveis, a preocupação social no planeamento, a integração permitindo as especificidades individuais, a criatividade morfológica e tipológica, a proposta de novos relacionamentos pessoais, a salvaguarda do meio ambiente, a fluência nas circulações, a interactividade equilibrada entre funções urbanas, a diversidade de oferta. e a livre escolha consciente de cada um.

não devia haver dinheiro ;) tudo devia ser gratuito :)
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