terça-feira, 9 de junho de 2009

papi e mami



conversa conversada no fds, tem andado na minha ideia acerca de como postar. aqui vai:

eu não pago tributo à sorte ou azar, quase nenhuma das coisas importantes na vida depende deles. ao que se costuma chamar sorte, eu chamo capacidade de a aproveitar, quando surge. ao que chamam azar, o inverso, incapacidade de aproveitar a sorte quando ela surge.
como diz o moniz pereira, "sorte dá muito trabalho", simples.

para quase tudo na vida há excepção (podia escrever "para tudo", mas neste caso, a excepção fazia as vezes do "quase", sendo a excepção do haver sempre excepção... adiante), no caso da sorte ou falta dela, a coisa mais importante que não depende dela ou da falta dela, são os pais.

parênteses (podia falar do sexo com que nascemos, mas é menos importante que os pais que temos, hoje em dia já se pode mudar de género e, convenhamos, por maior impacto que tenha na nossa vida, é um factor irrelevante para ser ou não um ser humano).

na tal conversa do fim de semana, depois de contar factos da minha infância, disseram-me que tive muita sorte com os pais. não é a primeira vez que mo dizem, e quando o dizem é sempre pelo mesmo motivo: eu falo dos meus pais, do que nos deram (ao hugo também), o que nos ensinaram, como nos permitiram crescer, e as pessoas a quem conto saem-se sempre com o "tiveste muita sorte com os pais que tens".

lembro-me de ser puto, e sair com a minha mãe à rua, da casa onde ainda hoje ela mora (com a minha abuelita), andar um quarteirão e passar numa mercearia (hoje é um café, se não me engano no lugar da antiga mercearia), frutas em caixotes à porta, e eu, catraio de 6 ou 7 anos, tiro uma cereja do caixote (deviam ser duas cerejas, em brinco, deviam estar apetitosas). minha mãe repara e repreende-me: não gritou, não me abanou, não me bateu (nunca me deu uma palmada que fosse), não fez uma cena. explicou-me que tirar coisas aos outros é errado, que se quisesse cerejas só tinha de dizer e ela comprava, porque eu as merecia, simples.

na realidade, sempre tivemos tudo (eu e o mano) que quisemos, mas o melhor é que sempre sentimos que merecíamos o que tínhamos, e esse sentimento de mérito fortalece muito mais que mil elogios bacocos para compensar ......... (fill in the word you chose).

dever de pais (pai e mãe) não é impingir pré-conceitos fechados ou ensinar a segurar no garfo ou a esconder erros. dever de pais é mostrar o mundo, criar sentimentos de confiança nos petizes, fomentar sonhos belos, corrigir se erram, mostrar-lhes que podem salvar o mundo (sem lhes colocar o globo às costas, quais atlas).

porque tive sorte com eles, os meus pais nunca tiveram de me vir resolver problemas (quando erro, sou eu que corrijo), não tenho de lhes mentir (para esconder menoridades que alguns pais fomentam nos filhos) e não têm de mentir por mim (suponho que o fariam com uma tristeza imensa).

ensinaram-me a amar (não só eles, claro, mas eles e abuelita primeiro), simples.

1 comentário:

  1. já tinha deixado um comentário aqui há dias, mas deve ter dado um erro qualquer.
    eu acho que não decidimos nada, que a escolha é uma ilusão, e que a sorte é o único factor que define tudo. não escolhemos onde nascemos, que pais temos, de que condição socio-económica usufruímos, a nossa língua mãe, etc. tudo isso forma a nossa personalidade (mesmo os factores genéticos) e a nossa personalidade faz as nossas escolhas, mesmo o que vamos vestir cada dia.

    agora o que determina a sorte é que eu não sei...

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