
ontem jantei bife com ovo a cavalo e batatas fritas, como a minha abuelita fazia, era eu catraio. ontem, não foi ela que fez, foi amor mais recente, mas soube mesmo bem.
abuelita fez 89 anos no domingo. por vezes, apesar de tão frágil, parece-me indestrutível. está tesa, rija, discute, fala pelos cotovelos, lúcida como um dia claro. sentiu falta do bisneto, claro.
mas fez bôla de carne! já não usa receita, sai-lhe sempre bem (deve ser magia, ela mal consegue amassar a massa). depois, ela gosta de perguntar se está boa e eu gosto de responder que está excelente.
minha avó teve uma vida dura, começou com quase nada para além da família, passou muita coisa, criou a minha mãe e deu uma boa ajuda na minha educação e na do meu irmão. ainda hoje é difícil evitar que vá lavar a loiça (que lava muito mal, mas adora), se apanha uma cama a arejar, vai fazer, se fica uma roupa fora da máquina, vai lavar no tanque, água fria de gelar, tantas vezes.
minha avó vai morrer. daqui a muitos anos, acho, mas vai morrer, porque viveu. e vai ver o bisneto crescer, até lá.

que bonita avó!
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