
quase três da manhã, noite tranquila, arejada de janelas abertas. estava deitado, tentava organizar a semana que vai começar, focava no dia de amanhã, fui distraído e vim escrever.
eu moro no 3º andar de um prédio antigo, com a idade da minha avó. o prédio tem um saguão (coluna vertical não edificada, que permite iluminação e ventilação a compartimentos que, sem ele, seriam interiores). este saguão tem a particularidade de servir dois prédios, o meu e um vizinho, também ele quase vazio, com excepção do 1º andar.
nesse 1º andar vivem duas irmãs, solteiras (pelo que me contou o presidente da junta), quase tão antigas como o prédio e a minha avó. discutem, são três da manhã e elas discutem. discutem com muita frequência, nunca percebo acerca de quê, parece ser acerca de muitas coisas poucas, e discutem a qualquer hora.
não é que se dêem mal, acho. opinião minha, vivem sozinhas há tempo demais, talvez não discutissem assim no início. não sei porque nunca casaram (nessa parte o presidente da junta não elaborou, acrescentou apenas que tem bons fundos, ao que eu acrescentei que uma delas é coscuvilheira ao limite), mas também arrisco escrever que se tivessem vivido amores, hoje discutiriam menos.
não conheço a história de nenhuma delas, mas por vezes, as pessoas, pelos motivos pessoais que as motivarem, deixam passar/cair/escorregar situações/relações/ocasiões que lamentam depois ter deixado passar/cair/escorregar.
nas rotinas actuais há mais motivos para que isso aconteça (questões de trabalho, finanças, inseguranças, individualismos) do que na época da juventude delas (as mais das moças, e os moços também, casavam novas(os) e poucas(os) ficavam para tias/solteirões), mas continua a ser pecado não amar...
silêncio no saguão, já só deve ser rompido pelos passaritos, na alvorada. recolho.

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