
hoje de tarde vinha a passear pela ferreira borges, depois de aproveitar a esplanada, e vi os dois lados de uma moeda importante.
ao primeiro lado, comecei por ouvir, estava um maduro a tocar saxofone alto, meio da rua, sozinho, roupa fresca, mala do instrumento aberta, a chamar moedas. tocava muito bem (a mim soube excelente), piscamos os olhos, fui a ouvi-lo visconde da luz abaixo. há pessoas que me provocam admiração, não pelas capacidades que possuem, mas por as utilizarem.
ainda ia a ouvi-lo quando vi o outro lado, silencioso. deitado no chão, outro maduro dormia, rodeado dos haveres, cartaz encostado à cara. no cartaz tinha escrito "como se pode viver sem trabalho?", acompanhado de uma história triste. estive para acorda-lo e apontar-lhe o saxofonista, mas suponho que nenhum pesadelo dele seria maior que o acordar. eu sei que se desiste, conheço mil motivos para desistir, cada um tem as capacidades que tem. mas há escolhas que as pessoas fazem que me provocam pena.
cada um ocupa o lugar na sociedade que lhe é confortável. nalguns casos, ainda bem. noutros, infelizmente.

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