sábado, 22 de agosto de 2009

a história da capuchito verde



era uma vez uma menina que sempre usava um capuchito verde. era muito irrequieta, observadora e generosa, por isso, a mãe pedia-lhe muitas vezes para levar um lanche a casa da avózita, que vivia do outro lado do bosque.

a capuchito verde gostava de ir, porque apreciava o prazer da avó ao vê-la chegar, gostava de lhe ver dançar os olhitos rugosos e gulosos ao abrir o cesto com o lanche, gostava dos carinhos que a senhora lhe fazia e das histórias que lhe ouvia, enquanto a velhota saboreava as guloseimas da cesta.

do que a menina não gostava era do caminho, cheio de sombras e formas que a assustavam, até chegar a casa da avó. levavam-na para pesadelos que tinha, de noite.

um dia, durante o caminho, uma das sombras no bosque moveu-se, num movimento sereno, gentil e firme. em frente da menina estava o lobo mais negro que alguém tinha visto (ou viu desde então, no mundo inteiro). mal teve tempo de se assustar, o lobo sorria.

- olá menina, que levas no cesto? - perguntou,
sereno, gentil, firme.

- um lanche para a minha avó, que mora no outro lado do bosque - respondeu a menina, mais curiosa que assustada, já...

continuaram a falar, e cresceu amizade. a menina habituou-se a parar durante o caminho, para conversar com o lobo. se ele não estivesse, ia decidida a esperar por ele, mas ele estava sempre,
sereno, gentil e firme. ela levava agora sempre algo extra, para o lobo. este, para além de duplicar os carinhos que ela recebia da avó, falava-lhe de um mundo diferente, onde as coisas faziam lógica e tudo parecia ser válido e possível.

breve, quem conhecia a menina gabava-lhe a serenidade, gentileza e firmeza recentes.

porque o que é bom acaba depressa, numa tarde, enquanto saboreava um kiche de espinafres e falava de como educava as crias, surgiu de entre os arbustos vizinhos um tiro. o lobo, atingido no coração, ficou parado a observar o caçador sair do esconderijo, voltar a apontar a arma. não voltou a disparar, porque, com um último sorriso para a menina, o lobo desapareceu, num rasto de sangue que se perdeu num riacho próximo.

não se encontrou o corpo do animal, nem alguém alguma vez voltou a ver
o lobo mais negro que alguém tinha visto (ou viu desde então, no mundo inteiro), mas o caçador, de nome doubt, ganhou fama por ter salvo a menina.

à capuchito nunca ninguém ouviu nada, nem "obrigada" nem "cabrão, para que fizeste isso?". continuou a levar o lanche à avó, sempre que a mãe lho pedia, mas já não tinha medo das sombras.

a avózita, mulher perspicaz de desilusões vividas, notava na menina, em certas tardes, uma serenidade, gentileza e firmeza mais intensas. mas, tal como desenvolvem perspicácia, também as desilusões desenvolvem respeito pela desilusão alheia, e a avó, redobrando carinhos, nunca lhe perguntou de onde vinham...


por não saber a resposta, também eu não a posso escrever aqui. suponho que seja tão válido acreditar que a menina as recebia do lobo, ainda, como que as tinha guardado, ao receber, antes.


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